O mundo precisava de uma heroína com esse poder

[Mulher-Maravilha – Wonder Woman, 2017]

É oficial! Mulher-Maravilha tem tudo para ser um divisor de águas nos filmes adaptados das histórias em quadrinhos e talvez ser o ponto de partida para que mais heroínas ganhem espaço na tela grande. Também promete fazer história no mundo da sétima arte e renovar a esperança dos fãs na DC Comics, e todo seu universo, após os fracassados Batman Vs Superman: A Origem da Justiça e Esquadrão Suicida. Eu só não entendo por que demorou-se 76 anos (desde seu surgimento nas HQs) para que essa super mulher fosse retratada no cinema.

Importante o filme já se tornou. Essa é a melhor estreia da história do cinema para um filme dirigido por uma mulher: mérito para Patty Jenkins,  à frente da produção que conta a origem de Diana, princesa de Themyscira. O êxito pode ser medido em números: o longa-metragem já arrecadou mais de 100 milhões de dólares apenas no primeiro fim de semana em cartaz nos Estados Unidos, de acordo com a Variety. Se na indústria cinematográfica a bilheteria é importante para medir o sucesso de uma produção ou não (infelizmente, na maioria dos casos o que define se um filme vai bem é o cifrão), a Warner não pode reclamar. Mulher-Maravilha arrecadou no mundo aproximadamente 223 milhões de dólares somente nos primeiros dias de exibição, desbancando outros filmes de super-heróis, como Thor (US$ 65,7 milhões), Homem de Ferro (US$ 98,6 milhões) e as sequências de Guardiões da Galáxia. Somente no Brasil a bilheteria já soma quase R$ 27 milhões. Nada mal para um filme cujo o orçamento foi de 150 milhões de dólares.

Mas, chega de falar de números! Por que será que Diana Prince (Gal Gadot) caiu no gosto da galera? A resposta é simplicidade e a opção pelo aprofundamento de um único personagem (que talvez não tenha sido uma escolha tão boa assim) em um filme redondinho. O roteiro, assinado por Allan Heinberg (Sexy and The City, Gilmore Gils e Grey’s Anatomy), não inventa muito e tem como objetivo apresentar ao expectador a história da princesa das amazonas, filha da rainha Hipólita (Connie Nielsen), que tem por instinto o desejo de ser uma guerreira e vive num mundo paradisíaco, não tendo contato com a humanidade assim como seus valores e distorções. Ainda criança, ela é treinada por sua tia Antíope (Robin Wright, que rouba a cena mesmo com tão poucos minutos de aparição) e não sabe o verdadeiro poder que tem, sendo protegida de um grande segredo que pode ser sua destruição caso seja descoberto. Esse é um dos mistérios do enredo, e, apesar de ser facilmente entendido por quem assiste só é revelado no último ato.

A passagem para a vida mundana é feita através da aparição do capitão Steve Trevor (Chris Pine), piloto e espião estadunidense em serviço durante a Primeira Guerra Mundial, que ao relatar os horrores e mortes no campo de batalha, ganha Diana como aliada na tentativa de fazer a diferença no front. Daí para frente vemos a heroína em uma jornada pela própria identidade, conhecendo aos poucos o amor (ou os prazeres carnais como o primeiro beijo e também a primeira transa – subentendida) e descobrindo uma sociedade controversa a seus ideais. Não se engane: Diana Prince é inocente, mas não boba ou ingênua, é forte, corajosa, mas também sensível e de uma sutileza nas palavras que vem de encontro a todo preconceito com a figura feminina da época, sendo considerada muitas vezes uma revolucionária. Sua personagem é sexy, mas não vulgarizada e sua beleza estonteante nem é ofuscada e nem a delimita como apenas uma personagem bonita. Ela oferece mais.

Nascida em Israel, Gal Gadot tem outras quatro nacionalidades devido a origem de seus avós (tcheca, polonesa, austríaca e alemã), motivo pelo qual fez com que o filme Mulher-Maravilha recebesse um pedido para ser banido do Líbano, e estava grávida de sua segunda filha durante as gravações. Miss Israel 2004, a atriz que já foi modelo, recruta do exército e estudante de Direito calou a boca de muita gente que não acreditava que ela fosse digna de sustentar a heroína nas telonas (eu mesma não estava convicta da escolha da atriz para o papel e paguei a minha língua). Erraram feio porque apesar de não ter ganho papéis de notoriedade, Gadot é um deslumbre aos olhos, possui um sorriso cativante e dá a super heroína todo o Girl Power necessário para prender a atenção. Entenda, ela parece gentil mas quando bate, bate para valer.

O par romântico com Chris Pine funciona bem, sem ser piegas ou forçado demais. Inclusive, a leveza na interação dos personagens é algo considerável e responsável pela maior parte do humor da produção, de grande valia ao longo das mais de duas horas de filme.

A diretora Patty Jenkins, de Monster: Desejo Assassino, foi quem levou Charlize Theron a conquistar o Oscar de melhor atriz em 2004. Ela é apenas a segunda mulher na história a ficar a frente de um filme em que o orçamento ultrapassou US$ 100 milhões, logo depois de Kathryn Bigelow em 2002, com K-19: The Widowmaker e se afastou de Thor: O Mundo Sombrio, da concorrente Marvel, por supostas divergências criativas. Aqui, ela dá o tom certo, quase que retrô (na verdade, o filme inteiro é um flash back), onde o longa-metragem adquire uma aura antiga que remete aos clássicos. A distinção dos atos também é realizada de maneira brilhante. Enquanto as amazonas são retratadas imponentes, corajosas, bondosas em meio a uma natureza de cair o queixo (como eu queria mais tempo para as amazonas), Londres é cinza, suja, apagada e sem vivacidade.

Entretanto, nem tudo são flores e mais uma vez vemos a falta de construção de vilões ou de suas motivações. Seja quando nos referimos aos alemães ou à Ares, o deus da guerra, nenhuma parece ser suficiente para que precise ser combatida. Outro fator que me incomoda é o final, que destoa de todo o resto, com tantos efeitos especiais e pirotecnia, que não eram necessários. Talvez isso esteja associado com a vontade de agradar aos fãs que gostam de uma boa luta e não decepcionar. A trilha sonora passa despercebida, a não ser pela música tema, lamentável depois de tão bons exemplos como o próprio Guardiões da Galáxia.

Mulher-Maravilha é sinônimo de protagonismo e representatividade em um ambiente dominado por heróis masculinos, podendo ser a porta de entrada para que personagens secundárias (Viúva Negra, Feiticeira Escarlate) virem protagonistas. A hora é perfeita para uma Girl Power estar dominando às telonas (mesmo que ela não seja tão empoderada pelo feminismo assim, afinal a preocupação é contar a origem da Mulher-Maravilha e por si, ela já é uma grande mulher) pois nunca se falou tanto em afirmação  e empoderamento feminino. Apesar das polêmicas e controversias, mulheres do mundo todo estão engajadas em tornar Wonder Woman um sucesso arrasador, fazendo campanhas para aumentar a bilheteria e influenciar que mulheres assistam o filme no cinema (e estou amando o movimento!).

Por aqui, a nossa certeza é de que o filme alcançou as expectativas! Vale muito muito a pena entender o começo de Diana Prince e do porque ela escolheu acreditar no amor e ficar do lado dos homens.

2 Comments

  1. Amei as suas impressões sobre o filme. Só consegui assistir na última semana, e fiquei completamente apaixonada pelo filme. A fotografia, a construção da história… tudo simplesmente incrível! Espero que a DC dê valor pra essa história que, vamos combinar, foi a única que valeu a pena nos últimos tempos. Ja estou ansiosa por próximos filmes da WW, e espero que sejam tão maravilhosos quanto! Beijos, saudades! <3

    1. Amanda Barrocas

      Obrigada pelo carinho e também por suas impressões e comentários sobre o texto! Com certeza esse é o melhor filme do universo da DC e espero mesmo que eles olhem com carinho para essa produção e continuem dando espaço para essa heroína. Saudade <3

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