Esperar numa fila pode refletir muito mais do que se imagina

[Waiting for B, 2015]

De ser fã de um artista eu entendo e muito bem! De participar daquele grupo seleto de malucos, apaixonados e fissurados em seu ídolo e que fariam um pouco de tudo (hoje, com certeza não) para estar mais perto dele também. E de verdade, o fã brasileiro deveria ser objeto de estudo, porque ele não se contenta em cantar as músicas, ter seu ingresso para o show e comparecer no dia da apresentação. Ele precisa sofrer, acampar, passar noites em claro para conseguir um local na grade para estar feliz.

Waiting for B conta a história de alguns desses fanáticos, em sua maioria negros, homossexuais e de baixa renda; que em 2013 se dividiram em tendas e acamparam por dois meses em frente ao estádio do Morumbi, aguardando pelo show da cantora Beyoncé em São Paulo (até parece um filme que vi durante as apresentações de um certo grupo mexicano chamado RBD, mas fica registrado aqui que eu nunca dormi dias na fila e sim fui para o local às 3h, sendo que o espetáculo era às 22h. Isso mesmo! A gente faz umas loucuras na vida). São anônimos retratados em toda sua diversidade nas lentes de Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel.

Com pouco mais de uma hora, o documentário brasileiro tem como objetivo mostrar a rotina e o desenvolvimento das relações interpessoais iniciadas na fila, organizada com uma hierarquia e respeitada pelos membros. A maioria das cenas são depoimentos dos fãs, no local, sobre por que escolheram estar ali e também da importância de Beyoncé em suas perspectivas de vida, já que a encaram como a MULHER NEGRA que DEU CERTO nos ESTADOS UNIDOS. Há grandes momentos de cada entrevistado, em seu ambiente de trabalho ou no convívio familiar, onde é possível notar o desconforto dos parentes com a opção sexual ou opinião de cada um. Existem relatos também que dão aquele nó de angustia na garganta, principalmente com relação ao preconceito vivido diariamente nas ruas e que vem gratuitamente das pessoas mais próximas.

O ápice, com certeza, é o contraste entre os fãs (que vestem sua máscara e fecham o semblante) de um lado e os torcedores do São Paulo (agressivos, barulhentos e incitadores de violência) do outro em um dia de jogo. É nesse momento que temos o real panorama da sociedade, tão conflitante e cheia de falsas ideologias.

A produção, que tem nuances de humor e muita dança, ou seja, várias coreografias da Beyoncé, venceu o Prêmio da Audiência de Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema Queer 2016 e foi indicada à outros prêmios cult do cinema musical. Muito válido para entender o outro e também os limites pessoais!

 

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