Aquele tal Mr. Darcy

[Orgulho e Preconceito – Jane Austen, 1813]

Não podemos negar que Jane Austen é uma referência e uma escritora importantíssima de seu tempo, que pensava e via além da sociedade em que habitava. É inegável também toda a sua contribuição literária, principalmente em uma época em que mulheres não ganhavam destaque nem mérito. É por isso que a britânica ocupa o posto de uma das escritoras mais lidas no mundo.

Confesso que esse tipo de romance sempre me foi um desafio. Muito talvez por toda a linguagem utilizada. Admito também que, mesmo tendo interesse em ler algo de Jane e possuindo alguns exemplares de sua obra, nunca havia sido motivada a pegá-los na minha biblioteca.

Em 2017, isso mudou, principalmente porque uma das minhas metas anuais é me desafiar na leitura, escolhendo títulos que não leria normalmente, entre eles um livro considerado clássico. Orgulho e Preconceito é o primeiro que leio de sua carreira de sucesso e digo que, apesar de não ter sido algo rápido (levei quatro meses para terminar as páginas), me cativou bastante por todo o contexto.

Publicado em 1813, o livro foi terminado em 1797, quando Jane tinha apenas 20 anos. O enredo mostra a transformação do romance improvável de Elizabeth Bennet (nossa Lizzy) e o nobre Fitzwilliam Darcy, em uma Inglaterra do final do século XVIII, onde as possibilidades de ascensão social eram limitadas para mulheres sem dote e realizadas através do casamento (não tão distante de uma atual realidade em muitos países, infelizmente).

Uma das cinco filhas de um dos senhores não tão bem vistos da província, Lizzy mostra com espirituosidade que um casamento arranjado não é o que todas querem, defendendo suas posições e sendo considerada uma mulher liberal, afinal, ela já sabia quem era e o seu destino antes de aparecer qualquer herói ou mocinho em sua vida. A personagem é bem-humorada, admite estar errada e é humilde ao confessar a transformação de seus sentimentos e conceitos para com o único homem que amou, Darcy.

Talvez, toda a trama de fundo seja uma crítica à sociedade fútil da qual Jane viveu (e vivemos) e seja um espelho daqueles que conhecemos ao longo de nossa jornada, além de nossas próprias concepções sobre o outro e os sentimentos que regem nossas ações: amor, inveja, felicidade, tristeza, raiva, frustração, obstinação…

Atualmente, acredita-se que o livro tenha cerca de 20 milhões de cópias ao redor do mundo (duas são minhas, rs). Orgulho e Preconceito é um clássico, que ganha fãs por seu romance e está nos debates que envolvem o feminismo, a cultura feminina e o papel da mulher na sociedade.

A indicação da engenheira civil Lissa Gomes é super válida, ainda que para conhecer uma outra época ou se apaixonar pelos personagens que se relacionam de um jeito muito parecido conosco. Um verdadeiro caso de amor com a leitura.

Orgulho e Preconceito tem muitas camadas. Lógico que a primeira é romance. É o gênero do livro, e é o que move a trama. Mas o livro é mais. É extremamente elegante, para começar, e por ser elegante, é muito mais engraçado em suas piadas (como um britânico bêbado). É também uma profunda análise psicológica dos diversos tipos de pessoas que nós encontramos na vida. Todos nós já encontramos uma pessoa séria e justa, e uma pessoa toda sorrisos e muito falta, e uma pessoa escandalosa sem remorsos, e uma pessoa doce e gentil que não parece odiar ninguém. E todas essas pessoas estão no livro, e todas elas crescem à medida que você lê, e as emoções que elas sentem estão ali: orgulho, preconceito, amor, felicidade, impotência, pré-potência.

E no meio de tudo isso, dessa análise profunda da natureza humana, você se pega torcendo pela Elizabeth, uma garota como muitas garotas no mundo, inteligente demais para o seu próprio bem. Ela não é como Bella Swan, uma garota que se encontra viva apenas no garoto que gosta. Não, Elizabeth já era feliz, e segura de si, antes de encontrar Mr. Darcy. E à muito contragosto, ela deixa suas opiniões caírem por terra, porque percebe que ele é IGUAL a ela, em tudo, e que é assim que os melhores casais do livro se formam, e é assim que a vida forma as melhores pessoas: aquelas que se deixam mudar e amadurecer. Ah, e eu nem falei que tudo isso se passa no século XVIII né? Pois é, porque a história é atual demais para esse detalhe.⁠⁠⁠⁠

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