O alento de um soco no estomâgo

[Outros Jeitos de Usar a Boca – Rupi Kaur, 2017]

Não há outro jeito de definir os poemas da indiana Rupi Kaur se não como um verdadeiro e certeiro soco no estômago. Essa é a sensação que permeia toda a leitura de Outros Jeitos de Usar a Boca, lançado esse ano pela editora Planeta Brasil, que reúne trabalhos da autora, entre textos e desenhos, e já vendeu mais de um milhão de exemplares nos Estados Unidos.

Quando digo soco no estômago, falo daquela sensação constante de enjoo que sentimos quando algo nos incomoda e mexe exatamente na ferida que parecia estar cicatrizada mas que na verdade está ardendo como nunca. Inconsciente, e infelizmente, temos o péssimo hábito de nos anularmos diante de algumas situações, mascarando o nosso sentir e rebaixando esse tempo precioso necessário para suportar as coisas, sempre por trás de um ‘está tudo bem’. Esse livro talvez faça tanta diferença porque fala justamente dessa sobrevivência feminina e contextualiza temas tão comuns mas tão tabus, como violência, abuso, perda, feminilidade, beleza, relacionamento, amor dos outros e amor próprio. Para se identificar, não é necessário ter vivido aquela experiência, apenas que ela esteja perto e para isso basta treinar sua empatia e sororidade. Aqui temos discussões mais profundas, principalmente de como enxergamos nós mesmas, a outra, as que estão do nosso lado, as que nos ajudaram a compor a nossa história, aquelas que vieram antes e as que virão depois.

Dividido em quatro partes, os poemas sugerem que lidemos com dores diferentes, presentes muito mais do que imaginamos. Para mim, significou também redenção, pois entendi que a proposta é compreender a mágoa, sentirmos no momento destinado para a frustração e a tristeza e nos reerguemos. Mais ou menos como o meu mantra (que tenho usado bastante ultimamente): Aceitar, Acolher e Agradecer. Tudo bem sentir, ter sua opinião, chorar…o importante é aprender, levantar a cabeça e continuar a caminhar.

Entretanto, a linguagem vai mais além e atinge outro patamar. Com tamanha delicadeza, Rupi Kaur nos transporta em uma jornada de mágoas, mas que também é um retrato do universo feminino na sociedade contemporânea, tentando se encaixar em padrões que não deveriam ser importantes. É uma maneira de ser espelho e ser canal para que nos reconheçamos e nos tornemos mais fortes, expondo a nossa essência da forma mais crua, simples, sútil e fazendo com que fiquemos leves. Por isso, a leitura é libertadora, mesmo que aconteça em 40 minutos, que foi o tempo que precisei para absorver a mensagem.

Nascida em Punjab, Rupi emigrou para Toronto e começou a carreira nas redes sociais. Entre os seus trabalhos mais notáveis está a sua série fotográfica sobre menstruação, descrito como uma poesia visual visando desafiar tabus sobre algo tão natural, que é o corpo da mulher e suas peculiaridades.

Outros Jeitos de Usar a Boca é daqueles livros pequenos mas grandiosos, que se lidos em diferente épocas causam distintas interpretações. Não consegui escolher apenas um dos poemas para citar, então reuni os que mais gostei nessa galeria de fotos. Quem sabe é o incentivo que faltava para você se apaixonar pela sabedoria dessa indiana.

Selvagem e visceral…esse livro é a nossa essência exposta de uma forma muito honesta! É como se a Rupi pegasse a mão da mãe dela de um lado, da irmã dela de outro, e cada uma fosse se unindo às mãos das mulheres mais próximas e todas formassem uma longa corrente que celebra e irradia força por toda nossa escuridão. É como se todas nós nos conectássemos umas as outras e nos reconhecêssemos por meio do amor. É a cura de traumas, feridas e experiências negativas e também a oportunidade de fortalecer umas as outras. (Giovana Seabra, jornalista)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *